segunda-feira, 30 de novembro de 2015

(I CAN'T GET NO) SATISFACTION

(I CAN'T GET NO) SATISFACTION

Fevereiro de 1966, desembarquei na Avenida Angélica ,em São Paulo, com uma mão na frente e outra atrás, como se diz: com pouco dinheiro e muito sonho. Desci do taxi em frente ao prédio de um pensionato onde morava um conterrâneo meu chamado Francisco Medeiros, o Chico.Viajara cinco dias na boleia de um caminhão de cargas, de Agostinho, amigo de meu pai. Depois de um ano de muitas cabeçadas e poucos acertos em Recife, durante o ano de 1965, voltara à Paraíba, com a mente focada na cidade de São Paulo. De Recife comprara uma passagem de trem de volta até a Estação de Sousa, no interior da Paraíba, dia todo de viagem, nenhum conforto e depois fora para Marizópolis de carona ou bigu, como era comum falar na época.
Em Recife, trabalhara em várias áreas, desde lojas de calçados, material de limpeza, moveis de aço e até venda de discos da Mocambo (da família Rozemblit) em domicílios. Estudara no Colégio Carneiro Leão, na quarta série do ginásio mas pouco frequentara a escola, dedicara o tempo livre às farras no chamado na época “Recife Podre” (centro velho, ambiente portuário), em Olinda e Camaragibe, com alguns de meus colegas de apartamento da Rua Fernandes Vieira; consequência incômoda e prevista: perdera o ano, reprovado por faltas.

No pensionato da Angélica, quase esquina com a Rua Jaguaribe, não havia quarto vago, mas meu amigo conhecia uma pensão na Rua Martim Francisco, paralela a Angélica e lá fomos nós. Acertado com o dono da pensão, pelo menos provisoriamente, dirigimos-nos ao quarto onde já morava um rapaz de nome Joaquim, o qual estava com a cabeça raspada, por ter sido aprovado no vestibular, creio que na Universidade Mackenzie, ali por perto. Fomos apresentados, entrei no quarto e procurei arrumar minhas roupas e poucos livros no pequeno armário, enquanto conversávamos. O rádio do Joaquim estava ligado, tocando (I Can't Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones. Aquela música me impressionou muito e marcou fortemente minha chegada à cidade que escolhera para viver. Fora o marco inicial, minha entrada, minha esperança ansiosa, meu encanto à primeira vista pela cidade de São Paulo.  

Joaquim Fausto

Joaquim Fausto


Há vários tipos de competições hoje em dia para eleger quem mais come hamburgers, ovos cozidos, cachorro quente, etc. De vez em quando vejo essas disputas na TV. Havia um conhecido nosso, nos arredores de Marizópolis, que se notabilizou por comer batata doce, queijo e rapadura em grandes quantidades, sem participar de nenhum campeonato, mesmo por que se houvesse esse tipo de competição, na época, com certeza ele ganharia com facilidade, era Joaquim Fausto. Visto de frente ele chamava àtenção, com efeito, pela saliente barriga; visto por trás, era meio quadrado; baixa estatura; obeso.

Meus pais costumavam contar e muita gente confirmava que Joaquim Fausto cozinhava batata doce numa lata vazia de querosene de 18 litros. A lata de querosene continha, como disse acima, 18 litros desse valioso combustível, muito utilizado para abastecer as lamparinas para iluminar os ambientes das casas, em locais onde não haviam energia elétrica. (Hoje em dia os sítios já têm energia fornercida pela hidrelétrica de Paulo Afonso). Após vazias e limpas, essas latas tinham muita utilidade: acondicionavam carne, costela, torresmo de porco dentro da banha derretida do mesmo animal e no caso presente para cozinhar batatas.

Dizia meu pai, também, que Joaquim Fausto costumava comer batatas escanchado numa rede, com as duas pernas para o lado de fora, os pés alcançando o chão e a lata de batata ao lado. Comia sem tirar as cascas , uma a uma, até esvaziar a lata.
Outras iguarias que Joaquim Fausto gostava muito era de queijo e rapadura. Comia uma rapadura com um quilo de queijo coalho; começava a comer e só parava quando não havia mais nada.
Dizia-se: “isto não é um homem, é um bicho” !



“Super novas”

“Super novas”

A natureza calculou o tempo para nós
Como a corda ou a bateria de um relógio
Exaurindo a bateria, desenrolando a corda
Fazendo a vida girar
Até parar.

Inverso ao relógio
Não há quem nos dê nova corda
Ou recarregue nossa bateria

Daremos lugar ao novo
Como no Universo todo
Como as estrelas
Como as super novas.



“Super lua”

Super lua”
Fiquei impressionado com a beleza das imagens, quando vi as fotos da “super lua” tiradas em alguns países, inclusive no Brasil, em 27 de Setembro deste ano. Esse satélite da Terra, que inspira poetas, compositores, escritores românticos, namorados e, claro, cientistas.
Muitas coisas vieram a minha mente, a música de Ary Lobo, que dizia: “…...... lá na Lua quando há casamento na polícia, é a moça quem é sentenciada, porventura se a mulher for casada e enganar o marido a coisa é feia, ela pega dez anos de cadeia e o conquistador não sofre nada ….....”
Isto se passou depois que o sputnik girou em torno da Terra, no auge da guerra fria; aquele objeto espacial, lançado pelos russos em 1957, teve o poder de alterar o modo de pensar e de resistir às mudanças. Ângela Maria cantava: “ Todos eles estão errados, a Lua é dos namorados …....” No cinema surgiu “O Homem do Sputnik” em 1959, com Oscarito, entre outros !
Lembrei-me também do pouso do módulo lunar realizado em Julho de 1969, quando Amstrong e tripulação chegaram à Lua. E o surgimento de teorias conspiratórias ? Uma dessas teorias sustentava que tudo aquilo fora montado em Hollywood. Vejam que o filme “2001 Uma Odisseia no Espaço” do diretor Stanley Kubrick foi feito, antes da alunissagem, em 1968, que propagou ainda mais as chamas dessas teorias, porque Holywood era capaz de fazer montagens quase perfeitas. O filme de Kubrick, até hoje nos encanta pela técnica, imagens, enfim, ainda não foi superado, ainda não tem paralelo. No meu limitado entender, caso tivesse sido “montado”, já teria sido descoberto, nesses quase cinquenta anos.
Dizem que a próxima super lua, com eclipse, não acontecerá antes de 2033. De qualquer forma a lua é sempre linda, vale à pena ficar olhando para ela e alimentado nossas fantasias !


Súbitos Poéticos

Ousado pensar próximas vidas,
Cérebros herdados,
Ideias recicladas,
Descartar erros e pecados cometidos ?

Lembranças de paixões guardadas,
Reviver o que valeu à pena,
Imagens inconvenientes esquecidas,
Vida reencarnada, plena ?








Saudades do “Galamate”

Saudades do “Galamate”
No sertão da Paraíba (e creio que em todo sertão nordestino) havia uma brincadeira muito interessante e que nos divertia muito, pena que não tive mais notícia dela. Pode ser que em algum sítio da região ainda exista, mas com as brincadeiras modernas e a difusão das novas tecnologias acho que perderam o interesse pelo galamate. O galamate consiste do seguinte:
É uma brinquedo para duas pessoas feito com dois paus roliços: um deles é enterrado no chão, como se fosse uma estaca ou um mourão, com uma ponta para cima, que mais parece um lápis apontado; ele fica com mais ou menos um metro para fora da terra, após parte ser enterrada no chão. No outro pau, é feito uma cavidade em forma de cone para ser encaixada na ponta do primeiro pau descrito acima e é espalhado breu derretido dentro da cavidade para, após encaixe, produzir barulho. Esse segundo pau mede mais ou menos dois metros de comprimento.
Duas pessoas sentam em cada uma das extremidades, como se sentassem numa gangorra. As duas pessoas com pés no chão fazem força para o pau girar no mesmo sentido, como se fosse um gira-gira e vão girando, girando, girando, na mesma direção e o barulho do atrito do primeiro pau com o segundo faz-se ouvir de longe, por causa do breu ! As duas pessoas ficam tontas de tanto girar; uma fica menos tonta que a outra, ganha a brincadeira aquele que estiver menos tonto !

Paixão

Paixão

Da paixão que a todos nós um dia invade
Surge a calmaria(Como na "Pastoral" de Beethoven)
Com o amor depois da tempestade
Aquela arrasadora

Este compensador.

“O Orador”

“O Orador”

Em 1963 houve uma disputada eleição para prefeito na cidade Sousa, no sertão paraibano. Os candidatos foram: Filinto da Costa Gadelha (Tozinho), pela UDN; Laercio Pires, pelo PSD; e, Antonio Mariz pelo PTB. Embora adolescente gostava de política, o que me motivou acompanhar o desenrolar da acirrada disputa eleitoral. Os candidatos mais fortes eram Tozinho Gadelha e Antonio Mariz; na minha família, trabalhamos para eleger Tozinho. Não me lembro muito de Laércio Pires, sei que era médico.
O candidato Antonio Mariz, também era de família tradicional, jovem Promotor na cidade de Antenor Navarro, hoje São João do Rio do Peixe. Era muito inteligente e de muito boa aparência, vantagens que resultaram em muitos votos femininos. Muito bem preparado, estudara no Rio de Janeiro e na França.
O candidato Tozinho, era o que consideramos como idoso, hoje em dia. Tinha a família tradicional de políticos que estavam sempre na administração do Município, na Câmara de Vereadores, Câmara de Deputados e mais na frente, Senado e governo do Estado.
No andar da campanha realizaram um comício em Marizópolis, vila que era subordinada a administração de Sousa. O palanque foi montado em frente ao Mercado Municipal. Meu pai me perguntara se eu queria ser um dos oradores nesse comício e se eu concordasse pediria ao Paulo Gadelha, que era advogado e sobrinho do candidato Tozinho, para escrever um discurso para eu ler. Minhas experiências como orador, quando muito, eram na escola e em alguns eventos tais como aniversários, batizados, quando me passavam a palavra e eu me abestava a falar, depois de algumas bebidas, contra minha vontade de tímido.
Pois bem o Paulo Gadelha escreveu o discurso e me entregou para proferi-lo no dia do comício. Na cabeça do povo e também na minha, orador bom mesmo tinha que falar de improviso e não lendo em papel. Para ficar bem na foto, decorei o texto do discurso. Mais tarde entendi porque o prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, do Bem-Amado, tirava o papel do bolso do paletó e dizia que era o seu improviso ! No dia do comício fiquei agitado e bebi, junto com alguns amigos, umas cachaças, para criar coragem. Anunciaram ao microfone: agora, senhora e senhores, um filho da terra vai falar ! O povo batia palmas e gritava vivas ! À minha frente, a plateia calou e eu decretei: “ O povo de Marizópolis vive um dos grandes momentos de sua vida política, quando recebe meu abraço e dos caravaneiros da vitória”. O restante do discurso não me lembro mais, mas foi um sucesso na vila e também com as meninas, ora ! Fiquei muito entusiasmado, pois quando marcaram um novo comício nos arredores de Sousa, me convidaram para falar. É bom lembrar que esses comícios eram acompanhados por um conjunto musical, neste caso, especialmente por Glorinha Gadelha, hoje médica e música, conhecida nacionalmente e em boa parte do mundo e foi esposa do Sivuca; Glorinha era sobrinha do candidato. Pela segunda vez subi ao palanque, e desta feita, para falar de improviso pois já estava me “achando”, na minha cabeça não tinha porque dá errado. Pois deu ! Após o locutor oficial me anunciar, fiquei um tempo com o microfone me esperando, tentei me lebrar do que falara anteriormente, no primeiro comício, e me embaralhou a mente. Por fim proferi inicialmente a seguinte asneira: “Tozinho é um nome doce na boca do povo”. O restante do improviso também não me lembro mais, felizmente. Foi minha sentença de morte como orador; veredicto anunciado por mim mesmo. No dia seguinte, na escola, zombaram de mim ! Naquela época já existia bullying, não com este nome pomposo. Tinha um colega, chamava-se Adauto, que estava na quarta série ginasial; eu cursava a terceira, na mesma escola, o Ginásio 10 de Julho” em Sousa. Ele ficou a semana inteira repetindo: galêgo, “Tozinho é um nome doce na boca do povo”!

À guisa de informação, quem ganhou as eleições naquele ano, com estreita margem de votos, apenas dez votos, foi o Dr. Antonio Mariz. Foi um bom prefeito e fez grandes realizações em Sousa. Foi também deputado federal, senador e governador do Estado da Paraíba , permanecendo neste último cargo apenas cinco meses pois faleceu em 1995.

“O Índio Fake”

“O Índio Fake

Mais para o final da década de 80 fui trabalhar em Manaus, transferido de São Paulo, por uma empresa multinacional, para elaborar o orçamento (budget) e trabalhar na contabilidade industrial da empresa na Zona Franca. Era uma grande unidade, com quatro mil empregados, maior parte alocada nas linhas de produção.
O pessoal da produção era em grande parte da própria região, do interior do Amazonas, do Pará e também do Nordeste. As pessoas da região têm aparência física indígena: estatura, cor da pele, olhos puxados e quase asiáticos, pois muitos são descendentes diretos de índio. Para mim era estranho, mas era muito difícil ver um índio verdadeiro no centro de Manaus; mais fácil ver em Brasília !
É muito comum os passeios de barco em direção ao “encontro das águas”, das águas escuras do Rio Negro com as águas barrentas do Rio Solimões, um espetáculo muito bonito de se ver. As águas do Rio Negro são da cor de chá mate, conseqüência da decomposição das folhas das árvores que o margeiam; enquanto que as águas do Rio Solimões são barrentas, devido a constante queda de barreiras nas margens daquele rio.
Os barcos também ancoram em determinados lugares para os turistas assistirem aos indígenas fazerem apresentações com danças, lutas, em trajes típicos, etc.
Num desses passeios, de fins de semanas, um colega acompanhara um visitante que viera de São Paulo, para executar algum serviço temporário na fábrica. Foram ao encontro das águas e no retorno em direção ao Porto de Manaus, fizeram parada numa aldeia para ver uma apresentação dos índios, às margens do Rio Negro. Enquanto viam o espetáculo, esse meu colega vira, vestido de índio, um empregado da linha de produção da fábrica ! O reconhecimento entre os dois fora imediato ! Como se viu reconhecido, o “índio”, começou a dançar de costas para platéia ! Na frente do visitante, o colega, naquele dia, nada comentou; quando chegou ao escritório na Segunda Feira, contou para todos nós a estória. Rimos muito, principalmente pela forma como esse colega narrara o acontecido !
Até onde há muitos índios reais, pode existir um índio fake !


Fico pensando nos protestos de índios que há no Brasil, e que de vez em quando, acontecem em Brasília. Tenho a impressão que há muito índio fake, de mentirinha, naqueles grupos !

O Filho de Zé Tomaz

O Filho de Zé Tomaz”
Zé Tomaz era um barbeiro de Marizópolis/PB, muito conhecido pela população, não somente pela sua profissão, mas também por suas surreais e divertidas mentiras. Meus irmãos e eu, o mais velho, cortávamos nossos cabelos em sua barbearia. Havia ordem expressa de nosso pai para cortar e raspar nossos cabelos, deixando só a parte de cima, que era aparada com tesoura: primeiro passava uma máquina manual (que às vezes mastigava nossos cabelos !) com pente zero, depois passava espuma de barbear, feita com água e raspa de sabonete, na parte onde era usada navalha, em seguida raspava o que restava dos cabelos, finalmente molhava uma toalha com álcool e passava em nossas cabeças. Para estancar o sangue de algum eventual corte, usava pedra pomes.
Pois bem, enquanto cortava nossos cabelos, Zé Tomaz contava que seu filho caçula gostava muito de picolé e quando faltava esse sorvete, chupava pedras de gelo e não aceitava outro tipo de alimentação. A princípio ele e sua esposa, como pais, ficaram muito preocupados mas não havia jeito do filho se interessar por outro tipo de comida. O menino era realmente muito branco, de olhos claros, de tal forma que suas veias azuis realçavam sob sua pele. Como éramos crianças e devido a aparência do menino, acreditávamos, com certa desconfiança, em suas estranhas estórias. Zé Tomaz ainda acrescentava, sem corar sua face, que seu filho preferia dormir dentro da geladeira, para saciar sua incontrolável vontade de chupar gelo. E o melhor dos mundos: o filho era sadio, não pegava nem “difruço”( gripe, resfriado) !



O Almoço

O almoço”
Não há hora certa para o almoço numa empresa hoje em dia, bem como não há hora para sair do escritório. O trabalho é duro, muita pressão, muitas metas para cumprir.
Naquela segunda feira saímos para almoçar eu e um colega, em torno de meio dia e meia e no caminho para o restaurante encontramos uma colega que se ofereceu para nos acompanhar. Escolhemos um restaurante que localizava-se acerca do escritório, pois precisávamos voltar rapidamente para o “batente”.
A moça era alta, magra, loira e bonita; muito bem vestida. Entramos no restaurante, localizamos uma mesa para três, sentamos e começamos a olhar o menu, rapidamente trazido pelo atendente. Escolhemos o prato e eles começaram a conversar. O meu colega perguntou como tinha sido o fim de semana dela, e ela respondeu rapidamente, demonstrando certa tristeza:
- Frustante.
Ele disse: por que, algum problema sério ?
Ela disse: Não, nenhum problema de saúde ou coisa do tipo.
Ele disse: Então o que foi ?
Ela disse: O que eu mais esperava nesse fim de semana não aconteceu. O cara nem se tocou, dei todas as dicas e nada; fiquei a ver navios.
Ele disse: Nossa, que chato !
Ela disse: É.
A conversa continuou dessa forma entre os dois, com se já houvesse um relacionamento íntimo entre eles anteriormente, mostrando muita cumplicidade. Fiquei sem jeito, numa situação desconfortável e disse-lhes:
- Quero que vocês fiquem a vontade para conversar, não quero atrapalhar, porque o que vocês estão falando não faz nenhum sentido para mim. Então vou para outra mesa, com licença.
Os dois disseram, ao mesmo tempo:
- Não, não faça isto, desculpe.
Eu disse:
- Não, para mim não há nenhum problema em mudar, levantei-me e fui para outra mesa.
Lá na Paraíba diria-se: não quero ficar aqui “cortando jaca” !
Achei uma grande falta de educação dos dois, principalmente da moça. Fiquei com uma vergonha danada, não sabia o que dizer.
Almocei, sai do restaurante e os dois ainda continuavam a conversar.



Nome

No interior da Paraíba, posso falar com conhecimento de causa da querida cidade Marizópolis, onde passei a infância e parte da adolescência, vindo do Sítio Carnaúba, nas beiradas (por isso era chamado de “beradeiro”) dessa cidade, que na época era vila.
Muito curioso é que várias pessoas têm dois nomes, naquela bela região: o oficial, do registro de nascimento e outro que lhes é dado, não sei por qual razão, popularizado de tal forma que os conterrâneos ficam surpresos ao saberem os verdadeiros nomes. As pessoas também são conhecidas por serem filhos de fulano, beltrano e sicrano.
No meu caso, registraram-me com o nome do meu avô no cartório; nem foi acrescentado Neto ao final do nome, como seria normal. Tratam-me por um nome completamente diferente do lavrado em cartório. Esse nome pelo qual sou tratado, creio que era a graça desejada pela minha mãe; mas quem me registrou não atendeu sua preferência.
Pois bem, o tempo passa, o mundo gira e a Lusitana roda, estamos na era das redes sociais. Como moro em São Paulo há quase meio século e tenho primos e parentes espalhados por quase todo Brasil, porque a família Lins é muito grande; creio que todos nós temos a mesma origem. De vez em quando meus primos ou parentes mais distantes, usando o Facebook e ao acessarem meu perfil, dizem que pareço com fulano de tal mas não me conhecem pelo nome cadastrado.

Alguns diálogos no chat do Facebook.

Alguém me contatando:

Oi, tudo bem ?
Tudo e você ?
Tudo bem.
Você não é Genival, filho de Lucilinha ? (o nome de minha mãe é Lúcia mas a chamavam de Lucilinha).
Sim, sou eu mesmo.
Por que esse nome no Facebook ?
Esse é meu verdadeiro nome !
É mesmo ?
Sim.
A conversa prossegue com a pessoa, desconfiada, me fazendo mais indagações, para ter certeza que estou lhe dizendo a verdade !

Eu contatando alguém:

Oi tudo bem ?
Tudo e você ?
Tudo bem.
Você não é filha de fulana ?
Sim, mas quem é o senhor ?
Sou primo de sua mãe, conseqüentemente, seu primo também !
A filha que está ao computador, diz: mãe, aqui tem um senhor dizendo que é nosso primo.
A mãe pergunta para filha: como ele se chama ?
Antonio Lins
A mãe diz: não o conheço.
Diga à sua mãe que sou conhecido por Genival.
A filha transmite à sua mãe a informação.
A mãe diz: ah !, agora sim, esse eu conheço, é nosso primo mesmo !

Muito divertido !


Mané Pinote

Mané Pinote
Como na região onde nasci a maioria das pessoas é conhecida pelo apelido, em Manoel não sei de que, foi colocado, com muita propriedade, a alcunha de Pinote. Alto, magro, olhos claros, de aparência que não escondia sua não muito distante descendência europeia, em torno de vinte anos de idade(nos anos cinqüenta), era o perfil de Mané Pinote.
Mané Pinote trabalhava em construção de casas, mais precisamente em telhados. Lembro dele se equilibrando com destreza sobre as cumeeiras, pregando caibros, ripas e colocando telhas. Para um trabalhador fisicamente normal é imprescindível ter grande habilidade para exercer esse ofício. No caso do Mané, o que chamava nossa atenção e aguçava nossa curiosidade, era que ele tinha uma espécie de tique nervoso. Enquanto andava, conversava, esticava os braços, fazia caretas, pulava e falava: “ e.....laaaaaasca” ! Podia estar onde estivesse, em cima de telhado, subindo escada, ele se contorcia e não se acidentava, apesar de seus gestos ligeiramente descontrolados.
Alguém perguntava: “Mané, tudo bem” ?
Ele respondia: “e.....laaaaaasca”, precedido de um pequeno pulo, completava “tudo bem” !
Para brincar com ele alguém perguntava, por exemplo, se ele gostava de melancia. Ele pulava e decretava: “e....laaaaaasca” ! Gosto “e laaaaaaca!” Muito !
Em certo sentido era engraçado mas algumas pessoas mal intencionadas, exageravam, peguntando-lhe coisas não publicáveis, que o leitor ou a leitora pode imaginar, só para ouvirem: “e....laaaaaasca”! proferido por Mané Pinote.




Loucos

Loucos e suspeitos.

Dizem que de médico e de louco, todos nós temos um pouco; quando queremos justificar nossos desvios comportamentais. A verdade é que existem alguns loucos que atiram pedra na lua, que tentam passar por baixo de um risco desenhado no chão mas são mansos e outros, que fazem tudo isso e, em adição, são agressivos.
Vou tentar retratar alguns loucos e suspeitos, não agressivos, que existiam em Marizópolis e arredores, na época que lá morava.

Alguns pareciam loucos mas não eram, a não ser na visão de Simão Bacamarte(*). Era o caso de Zuza Perigo. Zuza Perigo tinha a aparência de um árabe, cabelos pretos, sobrancelhas arqueadas e grossas feito taturanas, olhos redondos e pequenos; ele poderia muito bem ter sido chamado de Nagib ou Nassif, nomes que lhe assentariam muito bem. Por que então o achavam louco ? Porque parecia ! Andava sempre a olhar para o chão, com aos braços cruzados para trás; diziam que procurava moedas, perdidas por algum descuidado.

Havia um louco conhecido por Chico Bacorin. Este tinha cara e jeito de louco e era ! Estava sempre vestindo uma camisa desabotoada e aberta ao peito. Amarrava as calças com uma corda e uma das extremidades da mesma sempre ficava mais comprida, com um nó na ponta, que pendia balançando como um badalo de sino, por cima da braguilha. Não podia ver uma mulher que já tentava se aproximar, mas era de temperamento inofensível. Diziam que ele era um louco “fiota”, sem-vergonha, malandro. Porque não se encosta nos homens ? Indagavam revoltadas as mulheres !

Outro louco era Dedé de Donona Rocha (Donona era Dona Ana Rocha). Esse era louco de tirar a roupa na rua e sair correndo pelado ! Um doido alto, branco e magro, de boa aparência. Era filho de fazendeiro e quando ia à missa aos Domingos ia alinhado. Vestia roupas de linho brancas e bem engomadas; era um doido rico e tinha muito boa memória. Guardava bem o nome das pessoas, sempre as chamavam pelos nomes de batismo ou pelos apelidos.

Havia também uma louca conhecida por Lálálábanca. Grandona, tipo galega, de saias compridas e as vezes cheias de babados coloridos. Fazia suas necessidades fisiológicas onde lhe dava vontade. Uma vez a encontrei quando saia do colégio “10 de Julho”, em Sousa, estava fazendo xixi na rua, com tudo à mostra !

Um outro louco curioso era um rapaz negro, que morava perto da casa de Doca Vale. Creio que era filho de um morador da fazenda dele. O rapaz gostava de subir em árvores, sempre o via trepado numa velha aroeira no terreiro de sua casa. Quando no chão, catava pedras e parecia que as analisava, olhando-as por muito tempo. Nunca o via falando, só emitindo sons e chiados.


(*)Hoje, enquanto escrevia estas linhas lembrava-me do conto de Machado de Assis, “O Alienista” cujo personagem, Simão Bacamarte, médico e psiquiatra, enxergava loucura em quase todos habitantes de Itaguaí, mandando-os para o manicômio Casa Verde.

“Idioma Inexistente”

“Idioma Inexistente”


Naquela época quem tinha 19 anos ainda era menor de idade; hoje em dia quem tem mais de 18 já é maior. Estudávamos no ginásio e morávamos uns em Higienópolis, outros em Campos Elíseos, Bom Retiro. Nos fins de semana íamos ao cinema, nossa diversão preferida. Passávamos em casa de um dos colegas e caminhávamos pela Av. São João. O cine Metro não era tão longe dali, os outros cinemas do Centro, também não. Aquele ambiente de cinema nos deixava entusiasmados; enquanto esperávamos o início da sessão, fumávamos (na sala de espera podia) ou mascávamos Mentex. A propaganda do Mentex passava no cinema, era um peixe abrindo e fechando a boca e o locutor falava mentex, mentex, mentex, em sincronia com os movimentos de abrir e fechar da boca do peixe ! Pois bem, ainda andando pela São João, conversávamos e algum de nós disse: por que não fingimos que estamos falando uma língua estrangeira ? A sugestão foi aceita por todos, ao todo éramos uns quatro.
Falávamos coisas ininteligíveis e as pessoas passavam nos olhando, uns poderiam até estar acreditando naquilo, outros, em pensamento, deveriam nos chamar de uma cambada de idiotas !
Também falávamos algumas palavras em Francês, haja vista que tínhamos essa matéria na escola e sabíamos alguma coisa. Mas aí, como não podíamos sustentar uma conversação nesse idioma por muito tempo, emendávamos com outras palavras que não faziam nenhum sentido:

-Comment tale vous ?
-Très bien, mon ami !
-Mèrci beaucoup, alavanté, anarrié, travessé, balancé !
-Charles azinavour, chateau duvalier, alavantour !
-Fraçoise Hardy, Brigitte Bardot, legalité, pout porri !
-Cointreau, fraternité !

Enquanto estávamos falando, olhávamos um para cara do outro, sérios e às vezes rindo, para dá mais credibilidade a nossa conversação. Era um exercício de atuação !
E assim continuáramos a assassinar o Francês !



Feio

Ela dizia: você é muito feio !
Eu me retraia, como adolescente tímido.
Ela repetia quantas vezes queria.
Eu já estava convencido, já não mais me importava.
Ela dizia isto em frente as outras meninas, isto me preocupava.
Depois ela quis conversar comigo, sozinhos.

Ela não queria que as outras me quisessem.
COLÉGIO RIACHUELO


Quando cheguei a São Paulo tinha, prioritariamente, dois objetivos: trabalhar e estudar. Como era início do ano de 1966, havia urgência em encontrar uma escola para fazer matrícula, na quarta série do Ginásio, já que fora reprovado por faltas em Recife nessa mesma série. Mas havia um problema, não tinha dinheiro para matrícula. Fiquei sabendo, pelos colegas da pensão, que havia uma escola na Alameda Nothman, esquina com a Rua Conselheiro Nébias, no Bairro de Campos Elíseos, que não ficava tão longe da Avenida Angélica, onde morava, daria para ir e voltar a pé, caso conseguisse matrícula lá.
Fui à secretaria da escola e expliquei minha situação para o secretário (creio que seu nome era Ney) e este me apresentou ao diretor da escola, cujo nome era Ênio Chiesa, que era tratado por doutor Ênio. Disse ao diretor que não tinha dinheiro, mas que queria muito estudar e que poderia pagar a taxa da matrícula em algumas parcelas, se ele concordasse. Ele, com sotaque italiano, falando com o erre dobrado, terno e gravata, muito educado, aceitou minha proposta e dividiu o valor em, pelo que me lembro, seis parcelas. Teria que pagar o valor da mensalidade mais uma parcela da matrícula, mensalmente, até amortizar as parcelas da dívida e daí em diante pagaria só a mensalidade. Plano feito, plano executado. Fiquei muito agradecido pela compreensão e ajuda do Dr. Ênio Chiesa. O Dr. Ênio é uma das pessoas que nunca vou esquecer, por toda vida, por ter-me dado aquela oportunidade. Conclui o ginásio e ainda, continuando na mesma escola, fiz o curso de Técnico em Contabilidade; depois, segui para Universidade.




Antiga Rodoviária da Luz


No inverno de 1967, numa manhã fria e garoenta, acompanhei até a antiga Rodoviária da Luz, no Centro de São Paulo, um amigo que viajara para o Estado Paraná. Era em torno das cinco da manhã, mas ainda escuro, devido as condições do tempo. Morávamos numa pensão no bairro vizinho do Bom Retiro, mas bem próximo da rodoviária, de tão perto, fomos a pé, caminhando sobre os paralelepípedos escorregadios, que brilhavam devido a umidade provocada pela garoa e pelas luzes dos postes.
Pois bem, meu amigo embarcou, o dia já clareava, embora ainda sem sol. Decidi entrar num bar próximo para tomar um café. Já estava bebendo o café quando uma viatura da polícia, creio que do DEOPS, parou de ré, abriu a porta traseira do veículo e os soldados saíram e adentraram ao estabelecimento fortemente armados. Uns ficaram na porta e outros três ou quatro entraram, em direção aos fundos do bar. Eu não tivera a mínima ideia do que estava ocorrendo naquele local.
Paguei o café e me dirigi a porta de saída. Não me deixaram sair. Falei com o dono do bar para me ajudar, informando aos policiais que eu entrara no bar para tomar um cafezinho e não tinha nada a ver com o que estava acontecendo ali. O dono do bar tentou me defender, sem muito esforço. Os policiais não deram a mínima atenção ao seu pedido. Insisti. Temos que considerar que naquela época estávamos sob forte regime militar e havia prisões sem muitas explicações. Devido minha insistência um dos policiais me pediu um documento e naqueles tempos o documento era a Carteira Profissional; e eu estava com esse documento no bolso, e havia registro de trabalho, o que mostrava que eu não era malandro. De tanto carregar a Carteira Profissional no bolso, ela já não estava em bom estado de conservação. Muitos anos depois, por ocasião de minha aposentadoria, apresentei essa mesma Carteira Profissional ao INSS, para fazer os cálculos do benefício e eles duvidaram da integridade do documento, insinuando que eu o havia falsificado ! Bom, mas essa é outra história. Voltando a vaca fria, o soldado examinou meu documento e viu que eu estava registrado numa empresa; me devolveu o mesmo, me deu um empurrão que sai cambaleando pela calçada e quando me aprumei, sai correndo todo arrepiado e morrendo de medo ! Cheguei em casa rápido !

A Vizinha de Cima

“A Vizinha de Cima”

No lobby de um edifício qualquer, numa certa grande cidade. Acho melhor substituir lobby por hall, porque o lobby também é muito usado por políticos, no sentido de conchavo, maracutaia. Pois bem, no hall haviam duas pessoas a esperar os elevadores: uma senhora com um cãozinho no colo e um senhor também morador do condomínio. Vamos batizá-los de ela e ele, para facilitar a comunicação. Ela, alta, idade em torno de quarenta anos, calçando sapatos saltos altos, bem vestida, já havia apertado o botão de chamada do elevador dezenas de vezes e ele, também alto, já passava dos quarenta, vestindo um blazer azul e calças cinza; conclui-se que devia ocupar algum cargo executivo de alguma grande empresa, ficou só observando e imaginando: “ que coisa, será que essa senhora não sabe que quantas vezes mais apertar o botão, não vai fazer o elevador chegar mais rápido, que absurdo”!. O elevador dito social, que nada tem de social, diga-se de passagem, chegou. Ela apressadamente adentrou com seu amado e mimado cãozinho. Ele pensou: “Não é possível que essa senhora não saiba que para subir com animais tem-se que acessar o elevador de serviços” ?.
Ela pressionou o número quatorze enquanto que ele apertou o número treze. Vizinha de cima e vizinho de baixo, pronto. Ela não resistiu e perguntou: “ah, o senhor mora no décimo terceiro andar “? ! Ele respondeu: “sim, vizinho de baixo do seu apartamento”. E nada mais disse, mas pensou: “Como não se lembrava dele, se ele já fizera reclamação do barulho que ela faz” ? Ele continuou pensando no barulho que ela fazia todo dia, entrava de sapatos de saltos altos e continuava a andar dentro de casa, prá lá e prá cá. Ele e sua mulher ficavam a contar os passos dela. Depois ela parava para ver as novelas e quando estas terminavam já era tarde, mas ela então começava cuidar da janta. Ele supunha que ela estava preparando a janta porque começava a bater, dando-lhe a impressão que estava amaciando um bife, batendo o martelo sobre a carne e esta contra uma tábua de madeira, em cima da pia. Quando terminava a janta, agora era a hora de servir, de ir para a mesa, com o marido e aí começavam a arrastar as cadeiras.
Esse ritual barulhento, continuava até à meia noite, e às vezes ele e sua mulher sabiam a hora em que o casal de cima ia ao banheiro, de madrugada, pelas pisadas fortes sobre o assoalho, seu teto e o barulho das descargas.
Ele já falara com o síndico do prédio sobre esses problemas e informara que já fizera um contato verbal direto, em busca de um entendimento, mas parece que, em vez de melhorar, piorara. O síndico sugerira que fosse feito uma reunião com os dois casais, para conversarem e tentarem um acordo, caso não funcionasse o síndico faria uma advertência escrita e se, mesmo assim, houvesse reincidência mandaria uma multa, conforme previa a convenção do condomínio.
Esse tipo de reunião é muito delicada porque a maioria dos moradores de condomínios, não participam das assembleias, querem ter todo direito do mundo e reclamam de tudo e nunca fazem nada errado.
Com todos esses problemas, foi marcado o dia da reunião, às 20:30 h. Ela, a vizinha de cima, compareceu, junto com seu marido e o cãozinho de estimação, que latia por qualquer motivo e ela o chamava de meu bebê, para, sem sucesso, acalmá-lo. O vizinho de baixo, também acompanhado de sua mulher chegaram na hora combinada.
O síndico assumiu o comando da reunião e expôs, oficialmente, o objetivo da mesma. Determinou que quem fez a queixa deveria começar falar, ou seja, o vizinho de baixo. Ele disse: “como vocês devem se lembrar, há alguns meses atrás, fizemos uma reclamação do barulho que vocês estão fazendo e que está nos prejudicando o descanso, nos incomodando.” Acrescentou: “nos desola muito termos que fazer reclamação de um vizinho, mas não vimos outra saída.”
Ela disse e seu marido ficou calado: “ por que o senhor acha que o barulho vem de nosso apartamento” ?
Aí ele disse, e sua mulher também permaneceu calada, a exemplo do marido da outra: “vou repetir toda conversa que tivemos há alguns meses atrás, e falou do salto alto, das marteladas no bife, no arrastar de cadeiras na hora da janta, tudo, enfim, etc”.
Mas os vizinhos de cima não admitiam os erros e o síndico encerrou a reunião alertando que “como todos presentes sambem, temos nossa convenção e regulamentos internos, para serem aplicados, nos casos de abusos.”
O síndico, então, pediu ao morador prejudicado, manter-lhe informado dos próximos acontecimentos, para que futuras providências fossem tomadas.
Não fiquei sabendo se o problema deste caso fictício foi resolvido, no todo ou em parte, mas sinto que algumas pessoas não entendem ou não aceitam reclamações e passam a fazer pior, por birra quando confrontadas.

A intolerância, que é uma palavra usada com muita freqüência, pelos politicamente corretos, não se aplica a este caso, por conta de quem está reclamando não está sendo intolerante mas sendo prejudicado e incomodado, em seu direito sagrado ao descanso.
A Venda do Chapéu

Na década de 60 eu estudava em Sousa-PB, no Ginásio “10 de Julho”. Como morava em Marizópolis, durante a semana, me hopedava em Sousa na casa de um parente e nos fins de semanas voltava para Marizópolis. Aos Domingos fazia um “bico” na loja de tecidos do saudoso Otacílio Braz, marido de minha prima Inacinha. Era uma loja de tecidos, tipo de comércio que era muito comum na época, que além de vender tecidos por metro, também vendia roupas prontas para homens, boa parte costuradas pela minha mãe, sob encomenda da loja: ela recebia os tecidos, linhas e botões para confeccionar camisas e calças masculinas. A loja também vendia chapéus para homens, naquelas caixas redondas, com desenhos de carruagens, de cavalos saltando obstáculos; muito bonitas embalagens. O chapéu era embalado na caixa com a copa voltada para cima, para não amassar a aba e coberto com um papel fino. A marca vendida, se não me falta a memória, era Prada; creio que nada tinha a ver com a famosa grife Prada de hoje em dia.
Na loja haviam três balconistas, além do dono: O saudoso Vicente Estrêla, Carleuza (minha prima, cunhada do dono) e eu. Os bons vendedores eram o Vicente e o dono da loja, nós ( minha prima e eu), éramos aprendizes.
Um certo Domingo, entrou um cliente na loja interessado em comprar um bom chapéu e quem o atendeu foi o Vicente. Após mostrar vários tipos e informar os preços dos chapéus, o cliente disse que não estava satisfeito com a qualidade dos mesmos pois os achou muito baratos, e por serem baratos não podiam ser bons. O experienteVicente pensou um pouco e disse para o cliente: “espere um momento que vou lhe mostrar um produto especial que temos em estoque, já que o senhor está procurando um bom produto e não interessa o preço”. O Vicente trouxe um chapéu, do mesmo modêlo e qualidade dos que já havia mostrado ao cidadão, reforçando que se tratava de um produto sem igual. Por sua conta, o Vicente aumentara o preço para mais de duas vezes o valor normal. O cliente olhou o chapéu demoradamente e disse: “este é o chapéu que estou procurando, o senhor agora me entendeu, pode embrulhar que vou levá-lo”. Pagou e foi embora feliz !
Mas o Otacílio, que era uma pessoa muito correta, chamou o Vicente à atenção: “Não me faça mais uma coisa desssas Vicente, não foi justo, você me deixou sem jeito”. O Vicente crotra-argumentou dizendo que “a culpa não foi dele e sim do cliente”. O Otacílio retrucou: “o cliente aqui nunca é culpado de nada”.

Depois de muitos anos, numa de minhas visitas a Marizópolis, encontrei o Vicente e nos divertimos muito lembrando deste caso !
A pedra Licença.
Há muito tempo atrás, numa escola improvisada, na sala de uma casa cedida para esse fim, no sertão do Nordeste, mais precisamente na Paraíba, esmiuçando mais ainda, no sítio Carnaúba, Município de Antenor Navarro, hoje São João do Rio do Peixe.
Várias crianças da vizinhança reunidas naquela casa de taipa, com sala de chão batido e irregular, cuja superfície fazia com que tamboretes e cadeiras ficassem ligeiramente em níveis diferentes, com algumas pernas não tocando o chão. Num canto da sala uma quartinha ou moringa com água fresca e alguns copos e canecos de alumínio bem areados, presos aos pinos de uma tábua de madeira, pregada na parede. À frente uma professora sisuda, sentada à mesa; sobre essa mesa, uma palmatória, uma cartilha de ABC, uma Tabuada, ambas com três faixas verticais, com as cores azul, branco e vermelho, como as cores da bandeira francesa; uma pedra pequena, de forma e tamanho ovais, quase transparente. Essa pedra só era retirada, com a permissão da professora, para usarmos quando íamos ao banheiro, que era comum, naqueles tempos, estar localizado fora da casa.
Os alunos chamavam essa pedra de “licença” e só podíamos ir ao banheiro se ela estivesse disponível, sobre a mesa da professora. Tínhamos que perguntar a professora se podíamos pegar a licença. Ela permitia muitas vezes; ou não, poucas. Às vezes que negava, era quando desconfiava que um de nós estaríamos utilizando aquele espaço de tempo, fora da sala de aula, para fazermos hora ou fugirmos de uma eventual chamada oral.
A pedra tinha duas principais funções a meu ver: a primeira, controlar a saída dos alunos, um por vez; e, a segunda, educar, disciplinar.
Tentei descobrir a origem dessa prática, em usar a “pedra licença” naqueles tempos, que eram os anos cinquenta e poucos, mas ainda não encontrei nenhum paralelo.





500 Miles” (Five Hundred Miles)
Há algumas músicas que traduzem nosso estado da alma, com efeito, desvendam nossos sentimentos, num determinado momento e ficam definitiva e inesquecivelmente incrustadas em nossas mentes. Isto aconteceu com “(I can't get no) Satisfaction”, no meu primeiro dia na cidade de São Paulo e também com “500 Miles (Five Hundred Miles)”, um pouco antes.
Quando morei em Recife, durante todo ano de 1965, costumava sair com colegas do apartamento onde residia, na Rua Fernandes Vieira, às Sextas Feiras ou aos Sábados à noite, a procura de diversão. Um dos lugares que frequentávamos era o Texas Bar, numa das ruas da zona portuária, também conhecida como Recife Velho ou Recife Podre; nomes assim dados pelo povo por se referirem a parte antiga e ao descuido da administração pública, respectivamente. Era um lugar com muitos bordeis, inclusive havia lá duas casas que me chamavam muito à atenção pelas fachadas, eram “Molin Rouge” e “Chanteclair”, tinham frentes iluminadas, majestosas, com luzes de neon coloridas e piscantes ! Hoje essa área da cidade foi restaurada e está muito bonita. Ali perto há a primeira sinagoga das Américas: Kahal Zur Israel, que teve sua reconstrução concluída em 1989. A construção original, destruída, datava da ocupação holandesa. É uma história muita bonita, mas não é objeto deste texto.
Naquela época, anos 60, essa área da cidade era povoada à noite, principalmente, por artistas populares, estudantes, marinheiros bêbados, prostitutas, etc. Íamos lá também para beber cerveja e, mais vezes, cuba libre que na época era moda. O cheiro salgado do mar, soprado pela brisa morna, misturado com o perfume barato das mulheres e da fumaça tragada dos cigarros, a princípio me causara um pouco de náusea, mas com o tempo me acostumei. Não havia muito problema de segurança, mas ocorrera de algumas vezes sairmos do bar correndo ou procurarmos abrigo sob as mesas, por causa de briga de marinheiro com algum gigolô ciumento, com soldados do exército ou mesmo com algum bêbado tempestuoso.
No citado bar, como em muitos outros desse local, naquele tempo, haviam bonitas vitrolas iluminadas, onde escolhíamos as músicas e eram alimentadas por fichas. Uma das minhas músicas preferidas era “500 Miles”. Comprava várias fichas para repetir essa música quantas vezes pudesse. Essa música traduzia meu estado de espírito porque falava da distância de casa e eu estava sentindo isto. Quando retornei definitivamente de trem de Recife para o Sertão da Paraíba, essa canção vinha sempre a minha mente. Diz a letra: “If you miss the train I'm on, you know that I am gone/You can hear the whistle blow a hundred miles........” Letra e melodia são muito bonitas.
Nesse bar também ouvíamos “I Want to Hold your Hand”, “A Hard Day's Night” dos Beatles, que eram novidades bem diferentes de todas outras, embora inspiradas em Elvis Presley, Chubby Checker, Chuck Berry, Litle Richard, entre outros; era muita mudança. Mas, convenhamos, a década de 60 foi uma revolução na música, no cinema, na literatura, enfim, nas artes. Mamma Mia !